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segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Haṭhavidyā

Postado por drashtayoga às 13:07 0 comentários

Aprofundamento na Ciência do Haṭhayoga

O Espaço Kaula oferece um Aprofundamento na Ciência do Haṭhayoga, aberto a professores e praticantes desta arte. O objetivo deste curso é orientar a característica espiritual do haṭhayoga e seu propósito, dentro de um contexto tradicional e filosófico.

Por volta dos Sécs. IX e XI d.C. o Pātañjala Yoga, em sua forma original, se encontrava por demais perseguido pelos brâmanes, que insistiam em devolver a casta sacerdotal a ascendência sobre os praticantes de Yoga, restringindo-os a uma meditação sobre a verdadeira natureza do Ser (ātman) em relação à Brahmam.

Neste mesmo período ocorria na Índia um movimento reformista, uma contra-resposta ao status quo: nos referimos ao movimento dos siddhas e ao ideal do corpo diamantizado. Este movimento de grande revolução religiosa apresentava uma visão revolucionária e dinâmica do universo a uma Índia apegada e condicionada a um arcaico ritualismo bramânico. A nova visão tântrica do corpo reascendeu a chama e novamente o ímpeto à busca pela consecução espiritual. Para o tântrico, o corpo não mais é a causa de pecado ou perdição, mas o veículo para transcendência e a realização da natureza divina no homem.

Entre os siddhas do norte da Índia iniciou-se um movimento de reformulação do Pātañjala Yoga. Foi um siddha da Tradição Kaula, de uma linhagem conhecida como nātha sampradāya quem promoveu uma reforma em algumas escolas Kaulas e no Yoga. Seu nome era Gorakshanāth e ele viveu na região que compreende hoje o Nepal e o território indiano que vai do Estado de Bihar até o golfo de Bengala. Gorakshanāth deu nascimento a versão tântrica do Yoga de Pātañjali, restaurando integralmente os postulados dos sūtra-s, acrescentando ainda uma série de procedimentos corporais para intensificar os efeitos da prática. Assim nasceu o haṭhayoga, um conjunto de disciplinas rigorosas capazes de levar o praticante ao estado de unmanī avasthā.

Tornar o corpo um instrumento e parte do desenvolvimento espiritual ao invés de rejeitá-lo e esquecê-lo fora uma conquista e uma inovação dos yogī-s tântricos que propuseram uma mudança religiosa e cultural na perspectiva dominante da Índia medieval que dava as costas à manifestação corpórea. Em outras palavras, no haṭhayoga a iluminação é uma questão que envolve o corpo inteiro. Essa abordagem é resumida na noção tântrica de que a libertação (mukti) e o prazer (bhukti) são perfeitamente compatíveis.

Conteúdo deste curso:

1. A Ciência do Haṭhayoga
1.1. ascensão e desenvolvimento do haṭhayoga
1.2. estudo dirigido: Gorakṣaśataka, Haṭhayogapradīpikā e Gheraṇḍasaṁhitā

2. Biopsicologia do Yoga
2.1. a influência tântrica na tradição do Yoga
2.2. kośa
2.3. prāṇa e vāyu
2.4. nāḍī e cakra
2.5. granthi e kundalinī
2.6. mantra

3. A Prática do Haṭhayoga
3.1. ṣaṭkarma (purificações)
3.2. āsana (posturas)
3.3. prāṇāyāma (controle da respiração)
3.4. mudrā e bandha (selos e travas)
3.5. pratyāhāra (recolhimento dos sentidos)
3.6. dhyāna (meditação)
3.7. samādhi (absorção e elevação da consciência dentro do próprio processo de cognição)
3.8. nādānusādhanā (despertar do som interno)

O haṭhayoga é uma disciplina espiritual cuja finalidade é alcançar o estado de iluminação purificando e fortalecendo o corpo físico.

Atualmente, muitas são as pessoas que entendem o haṭhayoga como algo meramente físico, que se inicia na prática de āsana e termina no prāṇāyāma. Uma leitura atenta às escrituras tradicionais desta ciência desfaz imediatamente esta interpretação errônea.

Além de dar muita importância à prática de purificações (ṣaṭkarma), o haṭhayoga coloca ênfase nos aspectos sutis do despertar da energia potencial (kundalinī), as técnicas de percepção do som supersutil interior (nādā), a absorção final (lāya) da atenção na realidade transcendental e a iluminação (samādhi).

Como participante você será convidado a se conhecer melhor através da observação consciente de sua própria mente e do poderoso efeito que estas técnicas têm sobre ela, mergulhando em um estado de atentividade plena.

Nós recebemos os alunos em nossa casa, em um ambiente familiar denominado "Kula", segundo a nossa tradição. Este curso pode ser feito em sua escola ou cidade. Entre em contato conosco pelo e-mail:
kaulayoga@hotmail.com. Será um prazer respondê-lo.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Tradição Nátha Sampradáya

Postado por drashtayoga às 09:45 0 comentários

Hathavidyá Gurukulam


Além da religião e do sistema de castas, esta é uma antiga seita de avadhútayogís. Ela originou-se de Ádi-Nath e fora preservada por Shrí Matsyendranáth que transmitiu a Shrí Gorakshanát Ji os ensinamentos para posteridade...

As origens da Tradição Nátha Sampradáya se perdem nas brumas do tempo. Todavia, conforme a literatura documentada e preservada pelos náthayogís (ou jugís), Ádi-Náth (i.e. Shiva), foi o primeiro de todos os Náthas.

Entre hindus e budistas, a Índia setentrional nos faz recordar de 84 grandes adeptos (mahá-siddhas). Os nomes de muitos adeptos de alto calibre se encontram nesta listagem de mestres tais como Matsyendranáth, Gorakshanáth, Nágárjuna, Tilopa, Náropa e muitos outros. Fora entre a vasta linhagem dos mahá-siddhas que as artes alquímicas da medicina tântrica e do cultivo do corpo (káya-sádhana) foram intensamente perseguidas e desenvolvidas. O cultivo do corpo por seu aperfeiçoamento pleno e total significava a exploração do potencial oculto do corpo humano como um instrumento para transformação espiritual. Através da alquimia interna realizada pelos exercícios psicofísicos desenvolvidos pelos adeptos desta linhagem, o veículo corporal se tornava imune aos estragos do tempo. Assim era construído um corpo imortal, indissolúvel (vraja) e divino (divya), investido de todos os poderes do universo.

Esta tradição setentrional reconhece nove náthas (navnáth) cujos feitos são lembrados em incontáveis lendas remetidas a nós até os dias de hoje. Os nove náthas primordiais foram: Ádi-Náth, Matsyendranátth, Gorakshanáth, Udáyanáth, Sátyanáth, Santoshnáth, Áchal Áchambheynáth, Gaja-Kanthadnáth, Siddha Chaurangináth. As doze seitas agregadas a tradição nátha são: Sátyanáth, Dharamnáth, Darianáth, Ayi Panthi, Vairaag ke, Ram ke, Kapilani, Ganganáthí, Mannáthí, Rawal ke, Paavpanthí e Paagalpanthé.

A tradição nátha floresceu na Índia, região de Bengala, por volta do Séc. VIII d.C., e há registros de sua expansão até o Séc. XIII na literatura Tamil do Sul. Os náthas fazem parte de um dos mais tradicionais cultos místicos da Índia setentrional e seus membros são yogís de castas menos privilegiadas. Empunham o trishúla, utilizam málás feitos de sementes de rudráksha e ostentam em sua fronte o tripundra, típico de todo shaiva praticante.

Historicamente, a tradição Nátha Sampradáya fora fundada pelo sábio Matsyendranáth (900 d.C.) quem recebeu de Shiva as secretas instruções acerca do Hatha Yoga. Este mestre iniciou uma das personalidades espirituais mais respeitadas na Índia, Tibete e Nepal, Gorakshanáth (950 d.C), um grande siddha, pai do Hatha Yoga em sua forma corrente e o grande apóstolo do misticismo yogí na Idade Média. Após Gorakshanáth teve início uma sucessão de mestres realizados (siddhas) como Gahinináth, Nivrttináth e Jñánanáth, entre os primeiros membros da tradição.

A tradição às vezes é chamada de Gorakshaphanthí – por seguir os ensinamentos de Gorakshanáth – e seus aderentes são conhecidos como náthapanthís ou kánphatayogís. Embora a tradição seja shaiva em si, ela ainda agrega elementos do culto shakta, unindo-os com a teoria e prática asceta do Hatha Yoga. A palavra Kánphatha significa, literalmente, ‘fender a orelha’. Os adeptos desta tradição têm a prática de fender o lóbulo da orelha para acomodar grandes brincos alargadores denominados mudrá, dárshana ou kundala. Para os náthayogís estes brincos são muito auspiciosos e perdê-los é sinal de mau agouro e uma grande humilhação. Em tempos remotos, as punições para este desleixo eram rigorosas.

A iniciação (díkshá) se dá em dois níveis: primeiro há um período probatório de seis meses onde o probacionista vive em confinamento para testar sua perseverança. Após este período probatório existe a aceitação formal do probacionista como discípulo, ocasião em que ele recebe um mantra particular e a vestimenta de yogí. No segundo nível de iniciação suas orelhas são fendidas para que uma corrente (nádí) de força vital possa se iniciar fazendo com que os siddhis (poderes mágicos) possam ser mais facilmente adquiridos.

No início a tradição era ascética, contudo, nos dias de hoje ela preserva em suas fileiras homens e mulheres que são em sua maioria casados (laicos). Em geral são adeptos (náthaphanthís) que se dedicam ao estudo da tradição e ciências espirituais cognatas. No final do Séc. XVI d.C. a tradição viu muitos de seus templos destruídos nas mãos dos Sikhs, contudo existem ainda inúmeros mosteiros (mathas) espalhados pela Índia. Cada um destes mosteiros pertence a uma das doze subdivisões originais da tradição citadas acima.

A tradição também é conhecida como siddhamárga ou avadhútamárga. E como os professores (ácháryas) dela enfatizam a prática do Hatha Yoga como um recurso na direção da realização da perfeição (siddhi), ela também passou a ser designada como yogamárga.

Um discípulo que se propõe a ser um náthasamnyási tem essencialmente três gurus neste sampradáya:

Chot-Guru: após o período probatório, este guru entrega ao discípulo sua vestimenta yogí (na cor alaranjada), corta seus cabelos e lhe entrega a palavra de poder, i.e. o mantra de iniciação. O discípulo é instruído nas regras do auto-controle e nas práticas do Yoga. Após um período de adaptação, sua cabeça é raspada e ele passa sempre a utilizar a vestimenta alaranjada.

Chira-Guru: é o guru das lágrimas; após o discípulo ter recebido as instruções acerca do Yoga, sua vestimenta yogí e seu mantra de iniciação, ele tem os lóbulos de suas orelhas fendidas e recebem o kundala.

Mantra-Guru ou Updésh-Guru: neste nível, o guru ensina ao discípulo seu mantra secreto e lhe confere todos os conhecimentos e a proteção da tradição, mas somente após ele ter jurado seguir seus ensinamentos e cumprir todos os seus comandos até o fim de sua vida, com o objetivo último de se realizar como um nátha.

Shrí Gorakshanáth Ji promulgou que todos os adeptos da tradição tivessem os lóbulos das orelhas perfurados para suportarem os brincos (alargadores) feitos de barro, ouro, osso ou chifre de rinoceronte, e estes deveriam ser utilizados sempre a fim de afirmarem seu compromisso com o sampradáya, assim como a dedicação e determinação dos discípulos. Na intenção de verificar o profundo sentimento de desinteresse e o poder de suportar a dor, Gorakshanáth estabelecia esta tradição como um teste a seus seguidores. Aqueles que permaneciam sem usar as kundalas eram chamados de oghad, que significa nátha pela metade, e portanto não são alocados na categoria de iniciados reais.

Quando se sentam para meditar costumam invocar Alakh, um dos nomes de Shiva como “o invisível” ou “o espírito invisível que se encontra no fim do universo”. Ainda, quando se encontram, se cumprimentam com a palavra ádesh, que significa “comando”. Uma injunção para que o outro assuma sua “verdadeira natureza”, tornando-se assim um indivíduo livre (svatantrí). A palavra vem da raiz ádísh, que significa “tu és Brahman encarnado” ou “tu és Brahman em pura forma”.

Quando um laico aceita de coração um áchárya do Navnáth Sampradáya, é comum receber a iniciação por um sinal da sua graça, um olhar, um toque ou uma palavra, por vezes, um vívido sonho ou uma forte lembrança. Às vezes, o único sinal da graça é uma significativa e rápida mudança no caráter e no comportamento.

Os náthas são os responsáveis pelo que hoje conhecemos como a “Ciência do Hatha Yoga” ou Hathavidyá Gurukulam, uma revisão tântrica dos ensinamentos propostos por Pátañjali em seu Yoga Clássico, e sua doutrina foi criteriosamente apontada em manuais como o Gorakshapaddhati, Gorakshashatakam, Siddhasiddhántapaddhati, Gorakshabodh, Goraksha Samhitá, Yogavishaya, Hatha Ratnávali, Hathapradípiká, Gheranda Samhitá, Shiva Samhitá, Shatkarmasangrahah e outros.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Tradição Kaula

Postado por drashtayoga às 13:11 0 comentários
No coração, um Shakta, na aparência, um Shaiva, nas congregações, um Vaishnava. Sob todas as aparências os Kaulas perambulam pelo mundo.

A tradição Kaula, segundo um manuscrito do Séc. XI d.C., intitulado Kaulajñánanirnaya, foi iniciada pelo sábio Matsyendranáth. Entretanto, esse mestre foi somente o fundador da escola Yoginí Kaula de Kámárúpa – antigo reino do norte da Índia, próximo ao atual Assam e Nepal –, uma das quatorze escolas ou linhas desta tradição.

A tradição Yoginí Kaula postula como sádhana o ‘estado natural’ (sahaja) de ser, no qual a mente permanece estável, entra na vacuidade (shunyá) e se liberta da dualidade (dvaita). Esta tradição não enfatiza a prática dos antigos ritos externos, como rituais de purificação, estudo das escrituras, práticas exotéricas, sacrifícios, banhos ritualísticos e abluções, assim como visitas periódicas a lugares sagrados, pois afirma que estas observâncias não têm valor como meios para se atingir o objetivo supremo de autoconhecimento e iluminação. Os Kaulas pregam a substituição dos ritos externos por uma senda de esforço pessoal (sádhana), acompanhada pelo desenvolvimento das potencialidades alquímicas interiores.

Geograficamente, a tradição Kaula nasceu em Kámárúpa, antigo nome dado ao norte da Índia onde se encontram os Estados da Caxemira, Nepal e Assam, espalhando-se posteriormente para o sul do continente, principalmente para cidade de Kanyákumárí, sul do Estado Tamil e em seguida para toda a Índia.

A palavra kaula como um substantivo comum significa pertencente ou relacionado com uma família, grupo ou etnia. Neste aspecto, o termo kaula tem o mesmo significado que kula, sendo ambas às palavras utilizadas como sinônimos algumas vezes, embora o termo kula também seja mais uma designação genérica de cobertura para um grande número de escolas de linhagem shakta do que a designação de uma tradição em si. Em outras palavras, o nome significa em primeiro lugar grande família, casta nobre ou clã, e por extensão, organização ou cadeia iniciática, implicando a presença real da shakti.

Ritualisticamente, os Kaulas colocam ênfase sobre um culto vámácára (ou kaularahasya) voltado a Shakti Deví sob várias designações, embora todos estes nomes sejam designações populares da Grande Kula, o poder feminino do Cosmos, a Realidade Suprema em seu aspecto dinâmico, Shakti, ou mais especificamente, kundaliní-shakti. O aspecto masculino, Shiva, nesta tradição recebe o nome de Akula, princípio que transcende qualquer diferenciação. Assim, Kaula é um estado de iluminação ou libertação obtido através da união entre Shiva & Shakti.

O método de realização Kaula contém três aspectos importantes: o primeiro relaciona-se à vivencia da experiência corpórea sem ascetismo, mas orientada com esforço para despertar o poder da consciência (cit-shakti); o segundo relacionado à arte e à perfeição na prática dos fonemas (bijámantras) que provocam estados alterados de consciência; e o terceiro direcionado a prática ritualística em grupo.

O objetivo da prática Kaula é levar o discípulo a vivenciar a experiência da consciência liberta, o verdadeiro Ser (shaktátmá) presente no coração de todos os seres vivos. Esse objetivo pede um método ou processo de iluminação que é o sádhana Kaula, pelo qual o praticante (sádhaka) ou a praticante (sádhiká) deve possuir a maestria das forças sutis da mente instintiva e condicionada (manas) para atingir a Luz Suprema (prakásha). Para este fim, os Kaulas não injuriam ou abandonam sua natureza humana, tampouco seu corpo material. Eles consideram o corpo e sua natureza como uma dádiva do Ser Supremo, e como tal os glorificam com devoção pelo ritual.

As raízes da tradição Kaula estiveram perdidas até o Séc. XI d.C., quando Abhinavgupta fora iniciado nesta tradição por seu mestre Shambhunáth, mais precisamente na Escola Ardhatryambaka – também conhecida como Kulaprakriyá, uma Escola Kaula provinda da linhagem da filha de Tryambaka. A iniciação de Abhinavgupta nesta linha da tradição Kaula se deu através da esposa de seu guru, Shambhunáth, que atuou como uma dútí ou iniciadora. Esta iniciação é transmitida por um tipo especial de atividade sexual onde toda a energia é transmutada e sublimada no coração e posteriormente na consciência em si. Este é um método difícil de iniciação, mas rápido e eficiente, e está reservado aqueles que já dominaram sua natureza instintiva e são considerados puros de coração. Entretanto, segundo ele mesmo afirmou, o primeiro mestre da tradição Kaula foi Sumati, que teria vivido no sul da Índia, provavelmente na região Tamil. Assim, Sumati deu origem a linha preceptória iniciando Somadeva, que por sua vez fora mestre de Shambhunáth, quem iniciou Abhinavgupta em Jalandhara, no Punjab. Estas últimas informações aparecem com alguma imprecisão, principalmente acerca das fundações da tradição Kaula. No artigo, Em Busca das Raízes Tântricas do Hatha Yoga, primeira parte, outras informações importantes são mencionadas, e ao leitor é indicado sua leitura como forma complementar. Alguns textos dizem que Shambhunáth iniciou Abhinavgupta na Caxemira, o que seria mais provável. Outros dizem que esta iniciação ocorreu em Assam.

Como um dos maiores mestres da tradição Kaula em seu tempo, Abhinavgupta desenvolveu uma nova forma de tantrismo na região da Caxemira, incorporando a tradição Kaula os ensinos de Shivagupta (Shiva-Sútras) e da tradição Krama.

Abhinavgupta estabeleceu uma distinção entre os seguidores do Kula e do Kaula, dizendo que os primeiros são formados por clãs de ascetas próximos aos Kápálikas, e tal como estes vivem ao largo da sociedade como mendicantes, habitando os locais de cremação. Os Kaulas são uma tradição “organizada” e acessível aos “chefes de família” ou às pessoas que vivem na sociedade. A reforma que Abhinavgupta promoveu na tradição ao urbanizar o Kula, tornou o Kaula aberto ao culto das yoginís, assim os kaulikas passaram a enfatizar o aspecto mais interior do ritual, o que possibilitou que eles vivenciassem as mesmas experiências dos Kápálikas no interior de suas casas de forma urbana e organizada. Desta maneira, os rituais das yoginís e dos Kápálikas foram transformados em um culto doméstico, e ritos externos como aqueles efetuados em crematórios foram abandonados como supérfluos.

Assim como os ‘Perfeitos’ (siddhas), os ‘Heróis’ (víra), os Kaulas, membros de um círculo muito fechado, devem dominar perfeitamente os seus sentidos, o seu pensamento, superar suas dúvidas e medos, ter um coração puro, livre da cobiça e do apego, e ter recebido de um Guru Real, de linhagem fidedigna, a iniciação.

Somente nestas condições os Kaulas podem vivenciar, protegidos por um marco ritual, as experiências proibidas ou desaconselhadas aos homens ordinários (pashu) dominados pela rotina e pela cobiça, Os Kaulas chegam a libertação – “transformando o veneno em remédio” – utilizando meios que são, para maioria, causa de degradação ou dependência. Assim, trata-se de um autentico Yoga, muito diferente do Yoga Clássico, e segundo seus adeptos, mais completo, pois realiza a união dos opostos, espiritualizando o corpo e corporificando o espírito.

“É dito que o yogí não pode gozar do mundo e que aquele que goza do mundonão pode conhecer o Yoga: mas na via dos Kaulas há ao mesmo tempo gozo (bhoga) e Yoga” – Kulárnava Tantra I:23.

No momento em que um Kaula efetua a união sexual ele se abstrai do prazer simplesmente carnal e é absorvido na felicidade pura (ánanda) que é a natureza essencial do Ser. A lúcida utilização do álcool, a ingestão de comidas excitantes e a participação da mulher iniciada não tem outro objetivo que o de revelar e amplificar esta vibrante felicidade. Para que estas práticas possam surtir efeitos consideráveis, devem ser acompanhadas com a ascensão da Kundaliní. Em outras palavras, aquilo que os yogis realizam sem a ajuda de uma mulher exterior por um processo puramente endógeno.

Nos rituais Kaulas a energia Kundaliní está encarnada na companheira feminina transubstanciada em Deusa. O homem, representante do pólo Consciência, se identifica com Shiva.

Nos ritos Kaulas há um alto grau de interiorização, de preparação e de capacidade metafísica. O rito exige de ambas as partes intensa concentração para que não se degenere em uma paródia iniciática. O ego deve ser completamente abolido. Se a sacerdotisa que encarna a Deusa deixa de ser observada como uma incorporação sublime e passa e ser vista como apenas um objeto, desgraçadamente o rito se degenera. O resultado é o que vemos por aí: clubinhos pseudo-tântricos que se propagam no ocidente e outros, como os neo-tântricos, que se pretendem passar por tântricos espiritualizados que são nada menos, na melhor das hipóteses, uma terapia de duvidoso resultado. Um hedonismo puro e simples que prende o buscador a forma ao invés de impulsioná-lo a sua Real Essência.

Outras importantes tradições tântricas que estiveram conectadas de alguma forma a tradição Kaula são às tradições Nátha, Krama e Trika.

domingo, 8 de março de 2009

Hathavidyá

Postado por drashtayoga às 12:39 0 comentários
O Hatha Yoga ou hathavidyá, como é genericamente conhecido, foi uma importante ciência nascida do movimento pan-indiano conhecido como Tantrismo. Suas raízes estão ancoradas no culto tântrico dos siddhas e sua doutrina do káya-sádhana (cultivo do corpo), sofrendo forte influência da alquimia (rasáyana) e magia popular. Esta ciência recebeu ainda grande estímulo do Shaivismo e do Shaktismo na forma da doutrina da kundaliní.

Seu mais celebrado expoente foi Gorakshanáth (950 d.C.), membro do movimento dos Náthas no qual o cultivo do corpo atingiu sua apoteose. Como conhecido em sua forma corrente, a fundação do Hatha Yoga é atribuída a este yogí.

A doutrina da visão positiva do corpo trabalhada pelo Hatha Yoga exemplifica o espírito de integralidade do Tantra em sua melhor forma. Como qualquer escola tântrica, o Hatha Yoga propõe a ser um ensinamento para a negra era em que a humanidade se encontra, a Kali-Yuga.

Desde seus primórdios, o Hatha Yoga inclui os estágios superiores de concentração (dháraná), meditação (dhyána) e êxtase (samádhi), sendo assim uma verdadeira ciência espiritual independente. Contudo, os três manuais de Hatha Yoga mais estudados, Hatha Yoga Pradípiká, Gheranda Samhitá e Shiva Samhitá apresentam esta ciência como uma “escada” para se atingir o Rája Yoga. Infelizmente, ignorantes interpretações deturparam os verdadeiros significados do Hatha Yoga que não se limita apenas à busca de meras experiências transcendentais. Seu objetivo é transformar o corpo humano em um veículo apto à Realização Espiritual.

Assim, o Hatha Yoga busca a libertação por meio de um corpo yogí (yoga-deha) imune a doenças e livre das limitações que caracterizam o corpo profano. O corpo yogí é dotado de supersentidos (atíndriya) e poderes que vão muito além das capacidades de uma pessoa mediana. O Hatha Yoga remove o embotamento, as impurezas e as doenças. É uma ciência de três etapas, sendo a última a aquisição de poderes paranormais (siddhis) que ajudam o yogí na realização da Grande Obra.

Atualmente, muitas são as pessoas que entendem o Hatha Yoga como algo meramente físico, que se inicia na prática de ásanas e termina no pránáyáma. Uma leitura atenta às escrituras tradicionais desta ciência desfaz imediatamente esta interpretação errônea.

Além de dar muita importância à prática de purificações (shatkarma), o hathavidyá coloca ênfase nos aspectos sutis do despertar da energia potencial (kundaliní), as técnicas de percepção do som supersutil interior (nádá), a absorção final (láya) da atenção na realidade transcendental e a iluminação (samádhi).

As escrituras sagradas da Tradição Nátha-Siddha definem o hathavidyá como a mais pura e tradicional forma de Yoga. Elas definem o hathavidyá como o primeiro passo para o desenvolvimento espiritual, pois inculca o poder de controlar a mente através do domínio corporal. A purificação da mente só é possível se o corpo passa por um processo de purificação que, nesta ciência, inclui técnicas de shatkarmas (ações de purificação interna), ásanas (posturas psico-físicas), pránáyámas (respiratórios para expansão da bio-energia), mudrás e bandhas (gestos psico-fisiológicos para condução da bio-energia), nádánusandhána (cultivo do som interno) bem como uma grande variedade de técnicas de meditação. Em outras palavras, o Hatha Yoga assim é direcionado às pessoas que não possuem domínio sobre suas faculdades mentais, emocionais e até mesmo sobre o próprio corpo. Os mantras e as práticas de meditação estão aptos, se adequadamente dirigidos, a conduzir a perfeição do estágios mais elevados do Yoga, mas requerem o exercício da concentração para serem eficazes. O Hatha Yoga, portanto, consiste de certos dispositivos mecânicos de caráter físico que possibilitam este acesso.

A palavra hatha é constituída de duas palavras, ha (o sol) e tha (a lua). Esta definição foi dada pelo próprio codificador do hathavidyá em seu Siddha-Siddhánta-Paddhati. Respectivamente, o sol e a lua representam prána e apána, e sua união dá-se pela prática do pránáyáma. Pode ser dito que o Hatha Yoga e seu objetivo, sua essência, é a conquista do váyu e, portanto, do despertar da kundaliní. Em outras palavras, o objetivo do Hatha Yoga é interceptar a corrente oscilante da energia vital dentro do próprio corpo. Normalmente, a energia vital circula pelos nádís (principalmente em idá e pingalá) mantendo as atividades corporais e produzindo todos os fenômenos da consciência ordinária, esteja ela acordada ou não. O hathayogí procura concentrar esta força corporal inata impedindo que ela se dissipe. Ele se esforça a direcioná-la ao longo do sushumná. Isto desperta o poder latente da kundaliní-shakti no muládhárácakra, conduzindo-a até ao sahásraracakra. Este assento coronário é a morada de Shiva, a Suprema Consciência Transcendente. A união do princípio feminino na forma de kundaliní-shakti com Shiva, o princípio masculino, produz o estado de nirvikalpa samádhi.

A prática se inicia com a execução dos ásanas e dos shatkarmas, purificando o corpo e preparando-o para a prática dos pránáyámas. Com a utilização de mudrás e bandhas, o hathayogí direciona a bio-energia (prána e apána), auxiliando a percepção do nádá (som interno) através do nádánusandhána, levando-o aos mais altos níveis de consciência.

Nós recebemos os alunos em nossa casa, em um ambiente familiar, denominado “Kula”, segundo a tradição a qual participamos. Entre em contato conosco para maiores informações através do e-mail:
kaulayoga@hotmail.com. Será um prazer retornar sua mensagem.
 

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