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domingo, 5 de julho de 2009

Yoginí Shakti

Postado por drashtayoga às 11:00 0 comentários
. Revelando a Deusa em seu Interior .
. descubra como os segredos da Tradição Yoginí Kaula podem transformar seu Interior .

com os professores
Fernando Liguori & Júlia Marina

em outubro :: programe-se

(mais informações em breve neste site)
Shakti é a energia dinâmica latente em todos os seres vivos, o princípio feminino criativo e gerador. Genericamente, este é o nome dado a Deusa-Mãe. Metafisicamente, é o poder do Absoluto concebido como Princípio Feminino responsável pela manifestação do Universo. É o poder transformador da consciência que pulsa por detrás de todas as formas da Natureza. A descoberta e o desabrochar bem sucedido deste poder interno e latente abre as portas da percepção, causando um bem estar físico, psíquico e espiritual. Isso dinamiza a energia, fazendo com que ela flua em todas as experiências cotidianas, o que infunde em cada praticante maior consciência de sua Verdadeira Natureza em todas as circunstâncias da vida.

Neste workshop, planejado com as técnicas tântricas da Escola Yoginí Kaula, os professores Fernando Liguori (Anuttara) e Júlia Marina (Ma’Lika’), ajudarão homens e mulheres a mergulhar profundamente em si mesmos no objetivo de trazer à tona esta sutil e vibrante energia, para que ela possa ser aplicada e direcionada as relações pessoais, as emoções e na pratica do Yoga.

Este workshop irá explorar a necessidade feminina na atual sociedade a partir da perspectiva yogí. Desde suas arcaicas origens como a Deusa e a manifestação da Shakti em todas as situações da vida, traçando um histórico feminino de todas as idades, da adolescência a vida adulta, abordando temas como menstruação, gravidez, menopausa, depressão e outras desordens corporais, emocionais e mentais, sempre com uma abordagem yogí, o que inclui um amplo programa de práticas para cada tópico estudado.

Através da discussão e inquirição, a combinação de técnicas tântricas de meditação, mantra e visualização, ásanas, pránáyámas e yoganidrá, uma profunda modificação na consciência ocorre, o que inevitavelmente leva a uma profunda mudança na maneira habitual de se pensar e de se compreender as emoções, o que diminui os samskáras e vásanás, revelando a sabedoria inata, a criatividade e a vitalidade.

O workshop Yoginí Shakti ensinará aos participantes criar um espaço sagrado, seja em suas casas ou dentro de seus corações, permitindo que a Shakti desperte, desenvolva-se e se expresse em todas as circunstâncias, tornando-se assim o guia interior no caminho espiritual. Isso fará com que homens e mulheres, em um nível mais profundo de conhecimento, vão de encontro a sua Verdadeira Natureza, o seu verdadeiro EU, decodificando as experiências místicas de sua realidade Universal, fazendo com que a Essência mais sagrada desabroche. Toda essa profunda vivência revelará práticas de auto-cura, de rejuvenescimento e de celebração da vida por meio dos ensinamentos decorrentes dos poderes universais resultantes da união entre Shiva e Shakti.

Este Workshop é uma celebração a Shakti latente em cada ser humano. Ele irá proporcionar uma experiência única e transformadora para o sádhaka (adepto tântrico), assim como o estudante de Yoga, criando uma mudança em sua consciência enquanto sua divindade interna é tocada, o que proporcionará uma celebração a cura, ao rejuvenescimento e a vida. Através da sabedoria transmitida pelo Yoga, pela Áyurveda e pela tradição tântrica Shakta, de uma maneira simples e experimental, ocorre uma sincronização com os níveis mais profundos de consciência, o que desperta a Natureza benevolente da divina dança da Shakti interior, o divino poder feminino.

Os professores guiarão o grupo a compreensão da celebração yogí que ocorre internamente em cada ser humano que é a união entre Shiva e Shakti como realidades vivas. Essa descoberta interna se dará através de práticas de sensibilização, contemplação e meditação, assim como ásanas de desbloqueio energético para que cada sádhaka atinja o estado Kaula de ser, i.e. corpo, mente e espírito conectados de forma espontânea (sahaja).

domingo, 7 de junho de 2009

II Vivência de Yoga em Ibitipoca

Postado por drashtayoga às 14:57 0 comentários

Celebrando o Equinócio de Primavera

Permita-se conectar-se consigo mesmo nesta fase de fertilidade e beleza da Mãe-Terra em uma vivência de Eco-Yoga

Encontro com os professores
Fernando Liguori e Júlia Marina

A cor do Yoga é verde!
Atualmente, a beira de um colapso ambiental, somente uma
verdadeira espiritualidade verde faz sentido. Yogī-s
de todos os lugares precisam urgentementen reorientar
seus hábitos e estilo de vida.

Georg e Brenda Feuerstein

18 :: 19 :: 20 de março

(vagas limitadas)

Venha harmonizar-se em um encontro consigo mesmo neste Equinócio de Primavera, deixando florescer de seu interior a paz, harmonia e alegria provenientes da prática ecológica do Yoga em equilíbrio com a Natureza.

A primavera (do latim prima verna) é a primeira das estações, representa à vida, o nascimento daquilo que foi fecundado e gerado respectivamente no outono e no inverno. É hora de colher os frutos daquilo que silenciosamente, em recolhimento, projetamos para nós e o universo ao nosso redor.

A pratica de Eco-Yoga é um poderoso instrumento de crescimento pessoal e transformação espiritual, dotando o praticante de um sentimento de liberdade interior e felicidade. Através de sua prática, as limitações da vida podem ser transcendidas; habilidades podem ser desenvolvidas e uma maior eficácia nas ações podem ser conquistadas, o que resulta na expressão dos mais elevados níveis de criatividade e potencialidade humana. Ainda, o eco-yogī gradativamente se conscientiza da importância em consciliar sua prática de Yoga com os ideais mais elevados do ativismo ecológico.

O Yoga é essencialmente ecológico. O estado de consciência adquirido pelo eco-yogī lhe possibilita levar uma vida voluntariamente mais simples, mais sensível à ecologia, expressando todo seu amor pela Grande Mãe-Terra.

Venha conosco participar desta jornada de integração do Ser com as Forças da Natureza neste Equinócio de Primavera, quando se abrem os portais da Natureza, permitindo que ela jorre toda sua força e poder transbordante e abundante.

jornadas ecológicas :: meditação :: yoga
cachoeiras :: purificações ::energia

PROGRAMAÇÃO
podendo haver alterações

18 de setembro, sexta feira:

17:00 – chegada dos participantes na Estação Andorinhas. Conhecer pessoas que compartilham da busca espiritual, encontrar amigos e compartilhar anotações espirituais.

19:30 – abertura dos trabalhos:

- apresentação dos participantes
- cakradhyāna (meditação nos cakra-s)
- yoganidrā (relaxamento profundo e consciente)

21:00 – jantar

22:30 – repouso :: mouna (silêncio absoluto até a manhã seguinte)

19 de setembro, sábado:

5:30 – despertar

6:00 – cakradhyāna

7:00 – prática de Yoga

8:30 – desjejum

9:30 – caminhada ecológica até alguma das cachoeiras da Estação Andorinhas

- meditação e harmonização dos cakra-s

12:00 – almoço + tempo livre

14:30 – satsang: o Yoga e a Ecologia (livre)

17:00 – mahācakradhyāna

20:00 – jantar (caldo)

22:00 – tāndava: dança sagrada ao redor do fogo sagrado

23:00 – repouso :: mouna (silêncio absoluto até a manhã seguinte)

20 de setembro, domingo:

5:30 – despertar

6:00 – cakradhyāna

7:00 – prática de Yoga

8:30 – desjejum

9:30 – kaoshiki – dança para o equilíbrio e harmonização dos cakra-s

10:30 – caminhada ecológica até alguma das cachoeiras da Estação Andorinhas

- meditação e harmonização dos cakra-s
- satsang: o haṭḥayoga na perspectiva Kaula (livre)

12:00 – almoço + tempo livre

14:30 – satsang de encerramento

15:30 – saída.

MAIS INFORMAÇÕES SOBRE ESTE EVENTO

Esta vivência de três dias explora as técnicas do haṭḥayoga segundo as concepções filosóficas e práticas da Escola Kaula. Através da compreensão de como o corpo, a mente e o espírito se interagem, a ciência da biopisicologia foi desenvolvida pela tradição tântrica. Na prática, a interação (yoga) e o equilíbrio (praṁa) de técnicas como āsana (posturas psicofísicas), prāṇāyāma (captação e expansão da bioenergia), mudrā (gestos e ações que direcionam a bioenergia), bandhas (contrações de nervos, plexos e glândulas) e danças como tāndava e kaoshiki que despertam a bioenergia nos centros psicoenergéticos (cakra) reduzem o impacto das impressões e latências (saṁskāra e vṛttis) negativas do indivíduo, estimulando novas impressões e latências positivas.

Em outras palavras, a combinação destas técnicas leva o praticante a uma esfera espiritual de bem-aventurança, pois desbloqueiam os nódulos de energia psíquica fazendo com que ocorra um contato com a fonte mais profunda do Ser.

Nesta vivência iremos explorar diferente técnicas psicomentais que irão corrigir os cakra-s e as glândulas endócrinas a eles associadas que se encontram em desequilíbrio, o que resulta na correção ou alinhamento entre corpo, mente e espírito, resultando no avanço do processo de auto-realização. A isso nós damos o nome de praṁayoga.

SOBRE ALGUMAS PRÁTICAS DESTE EVENTO

Além das práticas de haṭḥayoga abordadas neste evento, duas danças tântricas serão ensinadas aos participantes.

Kaoshiki: é uma dança tântrica que consiste de dezoito mudrā-s, cada um com um significado bem específico. Embora física, a dança serve para despertar faculdades espirituais latentes. A ideação espiritual do kaoshiki faz com que o praticante estabeleça uma conexão com o divino. A prática física fortalece o sistema nervoso e endócrino, equilibrando corpo, mente e espírito.

Tāndava: esta é uma dança vigorosa associada ao Senhor Śiva como o dançarino cósmico, i.e. Natarāja. O nome tāndava deriva-se da palavra sânscrita tandu, que significa pular. Na prática, ela intensifica a produção de testosterona, o que reforça no praticante a busca pela vitória sobre o medo, principalmente o medo da morte. Portanto, a dança tem um fator idealizador. O praticante inicia a dança com os dois braços abertos: mão direita em punho e mão esquerda aberta (voltada para cima). Ele visualiza que em sua mão direita empunha uma espada (que simboliza a luta contra o medo) e que carrega em sua mão esquerda um crânio (que simboliza a morte). Os objetos reais da dança (crânio humano e espada) podem ser utilizados. A dança se inicia com um vigoroso salto onde os joelhos vão ao peito. Em seguida, um outro vigoroso salto onde os calcanhares vão aos glúteos. No fim, repete-se os saltos.

Cakradhyāna: é uma meditação direcionada a movimentação da bioenergia nos cakra-s. O praticante visualiza cada um dos cakra-s sendo purificado através de seus respectivos bījamantras enquanto kulakuṇḍalinī ascende por eles.

Mahācakradhyāna: é o mesmo trabalho, todavia, todos sentam-se em círculo e a cada ciclo de vocalizações mântricas um participante é convidado a se sentar no centro. Haverá um diálogo com o participante que se encontra no centro, levando-o a explorar questões inquietantes e perturbadoras que o afligem.

Condições de pagamento:

Até 21 de agosto:

Opção (a) R$ 180,00 à vista
Opção (b) 2 x de R$ 100,00
Opção (c) 3 x de R$ 70,00

Após 21 de agosto:

Opção (a) R$ 200,00 à vista
Opção (b) 2 x de R$ 110,00
Opção (c) 3 x de R$ 80,00

Estes valores não incluem transporte.

Hospedagem e alimentação: A hospedagem será na Estação Andorinhas. Já inclui todas as refeições. A alimentação será vegetariana. Usa laticínios e todos os tipos de vegetais, super saudável, leve e saborosa. Não serão servidas bebidas alcoólicas.

Inscrição: Efetive sua inscrição via depósito bancário ou mediante cheques pré-datados. Recebemos reservas de inscrição por e-mail, mas estas serão efetivadas unicamente mediante envio do pagamento em cheques ou via depósito bancário na conta cujos dados serão enviados aos interessados. Na escolha da opção de pagamento com cheques, estes devem ser enviados junto com seus dados, por sedex ou correio registrado para os organizadores.

sábado, 23 de maio de 2009

Recomendações da Família Kaula Yoga

Postado por drashtayoga às 08:25 0 comentários

aos Yogís estabelecidos em sua prática no ano de 2009

Ádesh!

1. Gaste mais tempo meditando. Meditação é uma forma de ininterrupta concentração e o meio mais efetivo de interiorização, de auto-reflexão. Passe pelo menos quinze minutos meditando toda manhã, assim que acordar, e quinze minutos toda noite, antes de dormir;

2. Leve a sério a sua prática de yogásanas. Freqüentar as aulas duas vezes por semana não é o suficiente. Dedique pelo menos quinze minutos toda manhã a prática de yogásanas, focando sempre naquelas que são mais adequadas a sua constituição (biótipo). Há três maneiras de se praticar yogásanas: a) como exercícios, ajudando no condicionamento e aumentando a saúde; b) como terapia no tratamento de doenças específicas ou disfunções do corpo e da mente; c) como prática espiritual para o autoconhecimento e desenvolvimento pessoal;

3. Beba bastante suco-verde este ano, sempre com a consciência do primeiro Yama: ahimsá. Enquanto você estiver causando infelicidade e dor (violência) àqueles que estão ao seu redor, sua meditação não dará frutos.

4. A maneira como começar o dia definirá a maneira como irá terminá-lo. Se ao se levantar a primeira coisa que faz é beber uma xícara de café, pela ingestão de cafeína seu dia poderá ser agitado, exaltando suas propensões mentais (vrttis). Portanto, tome a iniciativa (tapas) de começar seu dia empenhado na realização de seu autoconhecimento (swádhyáya), sempre elevando, consagrando e entregando seus pensamentos e atitudes ao Senhor Interno (íshvarapranidhána). Essa a realização do Yoga (i.e. Kriyá Yoga), atenua a fonte de todas as aflições (i.e. os kleshas). Veja Yoga-Sútras II: 1-3;

5. As vrttis são projeções de citta (mente) no exterior. O recolhimento destas vrttis depende de duas condições básicas: disciplina (abhyása) e desapego (vairágya). A prática do Yoga tem por objetivo a reintegração das vrttis em citta (veja Yoga-Sútras I: 12). Tomando atitudes que possam lhe trazer alegria, contentamento (santosha) e desapego aos frutos de suas ações, traga a disciplina do Yoga para seu cotidiano. Sua espiritualidade é exercida nas atividades mais triviais, e não apenas na hora em que se senta para meditar ou praticar ásanas;

6. Entenda os três corpos (sháríras) de maneira que você possa trabalhá-los efetivamente;

7. Além de se dedicar ao estudo do Coração do Yoga (i.e. os sútras de Pátañjali) e as obras clássicas da tradição como a Bhagavad Gítá, o Shiva-Sútras e o Hatha Yoga Pradípiká, por exemplo, estude também obras intricadas como o Siddhasiddhánta Paddhati, o Yoga Vishaya e o Hatha Ratnávalí;

8. Dedique-se a ser paciente e compassivo com todos os seres. Você faz parte de uma grande família (kula) universal. Todos partimos de um único Princípio Absoluto e a Ele nós retornaremos.

Ádesh!

Anuttara, Ma’Lika’ & Rudráh Mahesvára

domingo, 5 de abril de 2009

Shaivismo da Caxemira

Postado por drashtayoga às 07:30 0 comentários

Tu que és o Supremo que transcende o abismo, Tu que és aquele que não teve início, O Único que penetras-te as secretas profundezas, Tu que descansa em tudo, Tu que és encontrado por toda parte, tanto móvel quanto imóvel, em Ti, Shambu, eu tomo meu refúgio.

Abhinavagupta, Paramarthasára, versículo 1

Não existe nada que não seja Shiva, dizem as escrituras do Shaivismo da Caxemira. Esta é uma filosofia não-dualista [1] cujo fundamento central é que toda Criação é uma Vibrante (spanda) Energia Consciente que se expressa em diferentes formas e nomes. O termo Shaivismo é derivado de Shiva, [2] a Realidade Última (Anuttara), a Consciência Suprema que revela-se em inúmeras formas e nomes, na medida em que é simultaneamente transcendente e imanente.[3]

O Shaivismo da Caxemira iniciou-se por volta do Séc. IX d.C. com Vasuguptáchárya. Em sonho, ele fora instruído pelo próprio Shiva a encontrar uma série de ensinamentos grafados em uma rocha chamada shamkaropala na montanha Mahádeva. Ao acordar, Vasuguptáchárya foi até a montanha e ao tocar na pedra estes ensinamentos se revelaram. A pedra ainda se encontra na montanha, mas as inscrições não são mais visíveis aos olhos humanos, pois quando Vasugupta as memorizou elas desapareceram. Neste sonho Shiva disse-lhe que o mundo havia perdido sua direção e necessitava de uma doutrina que pudesse colocar todos os seres no caminho do verdadeiro ensinamento.
[4] Estes ensinamentos posteriormente ficaram conhecidos como Shiva-Sútras, um compendio de 77 sútras[5] que dão instruções diretas a humanidade e são o coração – ou a semente – da filosofia e disciplina do Shaivismo da Caxemira.[6]

Kshemarájáchárya (975 a 1125 d.C.), discípulo direto de Abhinavagupta,
[7] em seu comentário do Shiva-Sútras atesta o nascimento do Shaivismo da Caxemira como uma revelação em sonho conforme exposto acima. Ele translitera:[8] Na montanha Mahádeva estão às doutrinas secretas inscritas em uma pedra. Recolhe deste lugar estas escrituras e ensine àqueles que merecem esta graça.[9]

Em termos religiosos e filosóficos, a grande importância destes Aforismos de Shiva consiste no fato de que eles foram revelados para contestar os efeitos do dualismo. Portanto o Shiva-Sútras é genericamente chamado de Shivopanisat-Sangraha, i.e. um compendio que contém a doutrina secreta revelada por Shiva. Esta escritura (ágama)
[10] é a pedra filosofal do Shaivismo da Caxemira.

O sistema shaiva de filosofia advaita (i.e. não-dual) e Yoga é genericamente conhecido como shaivágama.
[11] A palavra ágama significa sistema ou doutrina tradicional que demanda fé. Este sistema também é conhecido como Shiva-Shásana. Outros nomes comuns para o sistema shaiva não-dualista da Caxemira são Trika-Shásana, Trika-Shástra, Trika-Sampradáya, Tryambhaka-Sampradáya,[12] Svátantryaváda, Svátantrya ou Rahasya Sampradáya.[13]

Existe uma grande dificuldade quando utilizamos o termo “Shaivismo da Caxemira” pois ele agrega em seu escopo inúmeros grupos, tradições e movimentos. Portanto, neste artigo este termo está conectado ao sistema não-dual de filosofia shaiva, cujas principais escolas são: Spanda, Kaula, Krama e Pratyabhijñá.

Comumente entre os estudiosos o termo Trika-Shástra tornou-se um sinônimo indelével de designação para o sistema shaiva da Caxemira. Trika
[14] literalmente significa tríade, e fora cunhado em relação à síntese exposta por Abhinavagupta. O termo incorpora importantes significados shaivas de acordo com algumas escolas:

1. Shiva (o Ser), Shakti (a Energia) e Nara (o indivíduo limitado);
2. Pará (não-dualidade), Apará (dualidade) e Parápará (a unidade na dualidade);
3. Pati (o Senhor Supremo), Pashu (o indivíduo limitado) e Pásha (o encarceramento, a prisão).
4. As três principais características de Shiva: icchá (vontade), jñána (conhecimento) e kriyá (realização);
5. A tríplice experimentação psicológica, i.e. o sujeito (conhecedor), o conhecimento e o objeto (conhecido).
6. Os três caminhos que levam o ser humano em direção ao Absoluto (Shiva): Shambhavopáya (a via divina), Shaktopáya (a via da energia) e Ánavopáya (a via do indivíduo);
7. Abheda (não-dualidade), Bhedabheda (não-dualidade com dualidade) e Bheda (dualidade);
8. Shiva (o Ser), Shakti (a Energia) e Anu (o indivíduo limitado).

Eu penso que o mais importante significado da palavra Trika para os yogís é a tríade Shiva-jíva-sádhana que pode ser chamada de tríade Consciência-aprisionamento-yoga. O termo assim designa três pontos a serem explorados: 1. a natureza da Consciência (i.e. o Absoluto) e a criação do universo dentro da Consciência; 2. o aprisionamento, a contração da Consciência e a experiência limitada e sofredora e; 3. o sádhana, a prática espiritual que livra o adepto da condição de aprisionamento. Portanto, Trika-Shástra coloca ênfase no sádhana, o aspecto prático ou yogí do Shaivismo da Caxemira.

Esta última definição, assim acredito, é designada para aqueles que estão firmemente estabelecidos em sua prática espiritual. Para aqueles que se interessam pelo Shaivismo da Caxemira e seguem sua disciplina yogí. Este é o coração do shaivismo (Trika Hridayan).

O shaivismo ensina que o estofo básico do universo é consciência pura, e não matéria. Isso pode ser comparado à experiência onírica no qual a consciência do sonhador é o substrato fundamental de tudo o que se apresenta no sonho. A Consciência que subjaz o universo pode ser chamada de Deus. Aqui me refiro a Deus como o Absoluto, além de qualquer forma específica.

Por razões apenas conhecidas a Ele, Deus decide criar o universo e se transforma em muitos. Pelo Seu Poder, que é personificado como Seu aspecto feminino, Ele cria o universo em seu próprio Ser, Ele mesmo se torna uma alma individual pelo processo de contração. Embora ele apareça na Consciência, o mundo criado é real. O universo é na verdade a Consciência que vibra em diferentes freqüências, se transformando mais material e grosseiro na medida em que se densifica.

O ser humano não é nada além de Deus na forma contraída. Quando um indivíduo olha para dentro de si mesmo ele consegue perceber que possui as mesmas qualidades do Absoluto, embora esteja contraído e viciado. Deus possui perfeita vontade (icchá), perfeito conhecimento (jñána) e perfeita habilidade para fazer (kriyá). O ser humano possui estes mesmos poderes em condições limitadas. Eles se apresentam como três nós dentro de seu ser.

O primeiro nó é a limitação da vontade. É a experiência humana individual que, no coração de cada um, aparece como um doloroso senso de separação, fraqueza e miséria. Este é o principal trauma de nascimento quando Deus se torna o indivíduo. A limitação do conhecimento é experienciada na mente. A mente humana experiencia a confusão e perdição na escuridão, portanto não consegue acessar a verdade. O terceiro nó é experienciado na região do umbigo e é sentida como um sentimento de frustração e falta de realização.

O shaivismo nos pede que reconheçamos nossa similaridade com Deus e afinal nossa unidade com Ele. Esta tradição examina a condição humana minuciosamente como uma contração que nos move da condição divina para condição de seres humanos. Ela reconhece o poder de contração e embotamento que possibilita esta condição. O poder é real, mas ele é na verdade um aspecto de Deus. Uma das maneiras pelas quais Ele pode nos mostrar isso é através de sua linguagem. A linguagem que Deus utiliza em Seu verdadeiro estado – como Absoluto – expressa sua estática canção de unicidade, ao contrário da linguagem humana, que tende perpetuar a separação e a fraqueza.

Observando a situação humana, o shaivismo entrega a solução, uma metodologia de superação das fraquezas e limitações humanas. Ele propõe uma compreensiva tecnologia interna designada a resgatar no ser humano sua inerente unicidade com Deus. Para isso, ele dissipa no praticante os nós de seu coração, de sua mente e de sua região umbilical por três métodos que serão abordados no decorrer do texto.

Tendo praticado profundamente estes métodos espirituais, o shaivita (shivaístaou shaiva, praticante do shaivismo) reconhece que a divindade de seu Ser é a mesma Consciência que perpassa o mundo e todos os seres. Não existe mais a distinção entre o divino e o impuro, o espírito ou a matéria. Ele experiencia a liberdade total, brilhando com sabedoria divina, e radiante com amor universal.

Anuttara Kápilanáth Kuláchárya

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[1] Idealismo monístico, idealismo absoluto, monismo teístico, idealismo realista, fisicalismo transcendental ou monismo concreto. Estas descrições dão significado ao ponto de vista de que cit (consciência) é uma realidade única; que a matéria não está separada de consciência, mas sim idêntica a ela; que não existe um abismo entre Deus e o mundo; o mundo não é uma ilusão conforme preconizado pelo Advaita Vedánta. Em outras palavras, ilusão é a percepção imediata da dualidade.
[2] Quando nos referimos ao termo Shiva estamos considerando seu sinônimo, i.e. Consciência Universal, Consciência Cósmica, Realidade Última, uma forma impessoal de Shiva. A mitologia das escrituras hindus como os puránas e diversas lendas populares trazem um considerável compendio de informações para que todo buscador encontre uma forma de Shiva pessoal, coberto de cinzas, envolto por rudrakshamálás, circundado por serpentes, com o Ganges escorrendo de sua cabeça. Essa é uma imagem pictórica de Shiva: o yogí boêmio exaltado em poder e glória transcendental. Nos pújás devocionais os mestres shaivas visualizam esta forma pessoal de Shiva. Aqui nos referimos à forma impessoal.
[3] Esta Realidade Última no Advaita Vedánta de Shrí Shankaráchárya é conhecida como Brahman.
[4] The Yoga of Kashmir Shaivism (Swami Shankaránanda), pp. 44. Motilal Banarsidass, 2006.
[5] Literalmente, fio, cordão, aforismo. Prosa concisa e enigmática na qual aparece redigida uma grande parte dos textos filosóficos do hinduísmo. Um sútra é uma composição de afirmações aforísticas que, unidas, dão ao leitor um sentido como que de um fio ou cordão com que amarrar todas as idéias importantes que caracterizam o sistema.
[6] Os outros manuscritos e escrituras deste sistema são comentários do Shiva-Sútras ou expansões dele.
[7] Veja o artigo Em Busca das Raízes Tântricas do Hatha Yoga.
[8] Existem controvérsias no que concerne à revelação do Shiva-Sútras. 1. Kallata em seu Spanda-Vrtti diz que Shiva ensinou o Shiva-Sútras em sonho a Vasugupta, que vivia na montanha Mahádeva no vale do arroio de Harvan, atrás do horto salimar perto de Shringar; 2. Bháskara em seu Várttika diz que um siddha ensinou o Shiva-Sútras em sonho a Vasugupta. O ponto comum dentre essas três teorias, i.e. a de Kshemarája, Kallata e Bháskara é: o Shiva-Sútras não é criação da mente humana. Eles tiveram sua origem no próprio Shiva e foram transmitidos – ou revelados – em sonho a Vasugupta. Estas controvérsias a respeito da suposta revelação do Shiva-Sútras são enfaticamente discutidas pelos escolásticos da tradição shaiva, contudo, qualquer um que se aprofunde e adquira intimidade com estes aforismos notará que eles provêm de uma fonte elevada. Grandes pândidas, mestres e sábios como Vasuguptáchárya tiveram acesso a essa fonte.
[9] Shiva-Sútras, The Yoga of Supreme Identity (Jaideva Singh), pp. xvi. Motilal Banarsidass, 2006. Esta é uma reimpressão da edição de 1979 da tradução em inglês do Shiva-Sútras Vimarshiní de Kshemarája.
[10] Obras consideradas como a revelação da divindade.
[11] Escrituras shaivas. O termo Shaivágama Yoga denomina o Yoga do Shaivismo da Caxemira ou Shaivismo Trika da Caxemira conforme os códices do Shiva-Sútras.
[12] No último capítulo de seu Tantráloka, Abhinavagupta menciona que dois preceptores estavam qualificados a ensinar o shaivismo: Lakulísha e Shríkantha. O primeiro fora o fundador dos Páshupatas, o segundo deu instruções a três seres perfeitos: Tryambhaka, Ámardaka e Shrínátha. Respectivamente, estes seres perfeitos ensinaram a doutrina shaiva da não-dualidade, dualidade, e não-dualidade com dualidade. A filha de Tryambhaka fundou uma quarta escola identificada como Ardhatryambhaka, que pode ser designada como a Tradição Kaula, chamada de kula-prakriyá por Jayaratha. Enquanto a Tradição Kaula é designada como sendo essencialmente tântrica, Jayaratha, um dos grandes comentadores do Tantráloka que viveu no Séc. XII d.C., sugere uma distinção entre kula-prakriyá e tantra-prakriyá: a primeira está conectada a linha Ardhatryambhaka e a segunda aos ensinamentos não-duais de Tryambhaka.
[13] As palavras shásana e shástra são muito importantes: ambas contêm a raíz shása que significa disciplina. Assim, shásana ou shástra significa técnicas que contém regras para disciplina. Estas palavras na Índia não são disciplinas consideradas como mera exposição intelectual de um sistema em particular. Elas expõem os princípios fundamentais da realidade ao mesmo tempo que lidam com certas regras, certas normas de conduta que devem ser observadas pelos adeptos que estudam e seguem determinadas tradições. Um shástra é um modus operandi, uma filosofia de vida.
[14] “Na Caxemira, o shaivismo se manifestou primordialmente em três sistemas ideológicos distintos de metafísica shaiva: Sphota, Spanda e Pratyabhijñá. Unidas, estas escolas formaram o que hoje conhecemos como Trika, nome pelo qual o Shaivismo da Caxemira é conhecido.” B. Bhattacharya em Shaivism and the Phallic World, vol. II, pp. 653. Munshiram Manoharlal, 1993.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Tradição Kaula

Postado por drashtayoga às 13:11 0 comentários
No coração, um Shakta, na aparência, um Shaiva, nas congregações, um Vaishnava. Sob todas as aparências os Kaulas perambulam pelo mundo.

A tradição Kaula, segundo um manuscrito do Séc. XI d.C., intitulado Kaulajñánanirnaya, foi iniciada pelo sábio Matsyendranáth. Entretanto, esse mestre foi somente o fundador da escola Yoginí Kaula de Kámárúpa – antigo reino do norte da Índia, próximo ao atual Assam e Nepal –, uma das quatorze escolas ou linhas desta tradição.

A tradição Yoginí Kaula postula como sádhana o ‘estado natural’ (sahaja) de ser, no qual a mente permanece estável, entra na vacuidade (shunyá) e se liberta da dualidade (dvaita). Esta tradição não enfatiza a prática dos antigos ritos externos, como rituais de purificação, estudo das escrituras, práticas exotéricas, sacrifícios, banhos ritualísticos e abluções, assim como visitas periódicas a lugares sagrados, pois afirma que estas observâncias não têm valor como meios para se atingir o objetivo supremo de autoconhecimento e iluminação. Os Kaulas pregam a substituição dos ritos externos por uma senda de esforço pessoal (sádhana), acompanhada pelo desenvolvimento das potencialidades alquímicas interiores.

Geograficamente, a tradição Kaula nasceu em Kámárúpa, antigo nome dado ao norte da Índia onde se encontram os Estados da Caxemira, Nepal e Assam, espalhando-se posteriormente para o sul do continente, principalmente para cidade de Kanyákumárí, sul do Estado Tamil e em seguida para toda a Índia.

A palavra kaula como um substantivo comum significa pertencente ou relacionado com uma família, grupo ou etnia. Neste aspecto, o termo kaula tem o mesmo significado que kula, sendo ambas às palavras utilizadas como sinônimos algumas vezes, embora o termo kula também seja mais uma designação genérica de cobertura para um grande número de escolas de linhagem shakta do que a designação de uma tradição em si. Em outras palavras, o nome significa em primeiro lugar grande família, casta nobre ou clã, e por extensão, organização ou cadeia iniciática, implicando a presença real da shakti.

Ritualisticamente, os Kaulas colocam ênfase sobre um culto vámácára (ou kaularahasya) voltado a Shakti Deví sob várias designações, embora todos estes nomes sejam designações populares da Grande Kula, o poder feminino do Cosmos, a Realidade Suprema em seu aspecto dinâmico, Shakti, ou mais especificamente, kundaliní-shakti. O aspecto masculino, Shiva, nesta tradição recebe o nome de Akula, princípio que transcende qualquer diferenciação. Assim, Kaula é um estado de iluminação ou libertação obtido através da união entre Shiva & Shakti.

O método de realização Kaula contém três aspectos importantes: o primeiro relaciona-se à vivencia da experiência corpórea sem ascetismo, mas orientada com esforço para despertar o poder da consciência (cit-shakti); o segundo relacionado à arte e à perfeição na prática dos fonemas (bijámantras) que provocam estados alterados de consciência; e o terceiro direcionado a prática ritualística em grupo.

O objetivo da prática Kaula é levar o discípulo a vivenciar a experiência da consciência liberta, o verdadeiro Ser (shaktátmá) presente no coração de todos os seres vivos. Esse objetivo pede um método ou processo de iluminação que é o sádhana Kaula, pelo qual o praticante (sádhaka) ou a praticante (sádhiká) deve possuir a maestria das forças sutis da mente instintiva e condicionada (manas) para atingir a Luz Suprema (prakásha). Para este fim, os Kaulas não injuriam ou abandonam sua natureza humana, tampouco seu corpo material. Eles consideram o corpo e sua natureza como uma dádiva do Ser Supremo, e como tal os glorificam com devoção pelo ritual.

As raízes da tradição Kaula estiveram perdidas até o Séc. XI d.C., quando Abhinavgupta fora iniciado nesta tradição por seu mestre Shambhunáth, mais precisamente na Escola Ardhatryambaka – também conhecida como Kulaprakriyá, uma Escola Kaula provinda da linhagem da filha de Tryambaka. A iniciação de Abhinavgupta nesta linha da tradição Kaula se deu através da esposa de seu guru, Shambhunáth, que atuou como uma dútí ou iniciadora. Esta iniciação é transmitida por um tipo especial de atividade sexual onde toda a energia é transmutada e sublimada no coração e posteriormente na consciência em si. Este é um método difícil de iniciação, mas rápido e eficiente, e está reservado aqueles que já dominaram sua natureza instintiva e são considerados puros de coração. Entretanto, segundo ele mesmo afirmou, o primeiro mestre da tradição Kaula foi Sumati, que teria vivido no sul da Índia, provavelmente na região Tamil. Assim, Sumati deu origem a linha preceptória iniciando Somadeva, que por sua vez fora mestre de Shambhunáth, quem iniciou Abhinavgupta em Jalandhara, no Punjab. Estas últimas informações aparecem com alguma imprecisão, principalmente acerca das fundações da tradição Kaula. No artigo, Em Busca das Raízes Tântricas do Hatha Yoga, primeira parte, outras informações importantes são mencionadas, e ao leitor é indicado sua leitura como forma complementar. Alguns textos dizem que Shambhunáth iniciou Abhinavgupta na Caxemira, o que seria mais provável. Outros dizem que esta iniciação ocorreu em Assam.

Como um dos maiores mestres da tradição Kaula em seu tempo, Abhinavgupta desenvolveu uma nova forma de tantrismo na região da Caxemira, incorporando a tradição Kaula os ensinos de Shivagupta (Shiva-Sútras) e da tradição Krama.

Abhinavgupta estabeleceu uma distinção entre os seguidores do Kula e do Kaula, dizendo que os primeiros são formados por clãs de ascetas próximos aos Kápálikas, e tal como estes vivem ao largo da sociedade como mendicantes, habitando os locais de cremação. Os Kaulas são uma tradição “organizada” e acessível aos “chefes de família” ou às pessoas que vivem na sociedade. A reforma que Abhinavgupta promoveu na tradição ao urbanizar o Kula, tornou o Kaula aberto ao culto das yoginís, assim os kaulikas passaram a enfatizar o aspecto mais interior do ritual, o que possibilitou que eles vivenciassem as mesmas experiências dos Kápálikas no interior de suas casas de forma urbana e organizada. Desta maneira, os rituais das yoginís e dos Kápálikas foram transformados em um culto doméstico, e ritos externos como aqueles efetuados em crematórios foram abandonados como supérfluos.

Assim como os ‘Perfeitos’ (siddhas), os ‘Heróis’ (víra), os Kaulas, membros de um círculo muito fechado, devem dominar perfeitamente os seus sentidos, o seu pensamento, superar suas dúvidas e medos, ter um coração puro, livre da cobiça e do apego, e ter recebido de um Guru Real, de linhagem fidedigna, a iniciação.

Somente nestas condições os Kaulas podem vivenciar, protegidos por um marco ritual, as experiências proibidas ou desaconselhadas aos homens ordinários (pashu) dominados pela rotina e pela cobiça, Os Kaulas chegam a libertação – “transformando o veneno em remédio” – utilizando meios que são, para maioria, causa de degradação ou dependência. Assim, trata-se de um autentico Yoga, muito diferente do Yoga Clássico, e segundo seus adeptos, mais completo, pois realiza a união dos opostos, espiritualizando o corpo e corporificando o espírito.

“É dito que o yogí não pode gozar do mundo e que aquele que goza do mundonão pode conhecer o Yoga: mas na via dos Kaulas há ao mesmo tempo gozo (bhoga) e Yoga” – Kulárnava Tantra I:23.

No momento em que um Kaula efetua a união sexual ele se abstrai do prazer simplesmente carnal e é absorvido na felicidade pura (ánanda) que é a natureza essencial do Ser. A lúcida utilização do álcool, a ingestão de comidas excitantes e a participação da mulher iniciada não tem outro objetivo que o de revelar e amplificar esta vibrante felicidade. Para que estas práticas possam surtir efeitos consideráveis, devem ser acompanhadas com a ascensão da Kundaliní. Em outras palavras, aquilo que os yogis realizam sem a ajuda de uma mulher exterior por um processo puramente endógeno.

Nos rituais Kaulas a energia Kundaliní está encarnada na companheira feminina transubstanciada em Deusa. O homem, representante do pólo Consciência, se identifica com Shiva.

Nos ritos Kaulas há um alto grau de interiorização, de preparação e de capacidade metafísica. O rito exige de ambas as partes intensa concentração para que não se degenere em uma paródia iniciática. O ego deve ser completamente abolido. Se a sacerdotisa que encarna a Deusa deixa de ser observada como uma incorporação sublime e passa e ser vista como apenas um objeto, desgraçadamente o rito se degenera. O resultado é o que vemos por aí: clubinhos pseudo-tântricos que se propagam no ocidente e outros, como os neo-tântricos, que se pretendem passar por tântricos espiritualizados que são nada menos, na melhor das hipóteses, uma terapia de duvidoso resultado. Um hedonismo puro e simples que prende o buscador a forma ao invés de impulsioná-lo a sua Real Essência.

Outras importantes tradições tântricas que estiveram conectadas de alguma forma a tradição Kaula são às tradições Nátha, Krama e Trika.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Kulácákra

Postado por drashtayoga às 03:55 0 comentários

O Espaço Kaula oferece na purmina (lua cheia) de cada mês o Kulácákra* (também denominado cakrapújá ou bhairavícakra), uma cerimônia tântrica de adoração a Ádi-Shakti Deví na forma da Deusa Kálí.

Esta cerimônia, conforme adaptada por nós para recepção de qualquer pessoa, inclui cântico de mantras, meditações, visualizações conduzidas ou com yantras, a prática do bhutashuddhi (purificação dos elementos internos) e do nyása (consagração sacralizada pelo toque), a realização de ásanas (posturas psico-físicas), pránáyámas (exercícios de expansão da bio-energia) e mudrás (gestos energéticos para canalização e emissão do prána), além de outros elementos do tantrismo conforme a síntese feita pelo grande mestre Abhinavagupta que incorporou a Tradição Kaula elementos da Cultura Spanda, dando origem ao seu sistema dentro da Escola Trika do Shaivismo da Caxemira.**

Tradicionalmente, todas as escolas tântricas cultuam a face feminina do Absoluto como Adi-Shakti Deví, em uma de suas inúmeras formas. Os tântricos de linha shaiva (também conhecidos como shivaístas), dirigem suas adorações às Deusas Kálí e Durgá, consideradas o poder feminino ou as consortes de Shiva.

Além de ser um louvor a Deusa, está é uma oportunidade para se aprender sobre a cultura tântrica e seus mistérios, em um clima de aproximação, respeito e igualdade. Os encontros são abertos a todas as pessoas que queiram conhecer um pouco mais deste Grande Universo Kaula.


Abhinavagupta (975 a 1025 d.C.) ensinando seus discípulos.
Nós recebemos os convidados em nossa casa, em um ambiente familiar, denominado “Kula”, segundo a tradição a qual participamos. Entre em contato conosco para maiores informações através do e-mail: kaulayoga@hotmail.com. Será um prazer retornar sua mensagem.

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* Para maiores informações sobre o Kulácákra e a Tradição Kaula veja o artigo “Em Busca das Raízes Tântricas do Hatha Yoga” no blog “Náth Uttara Sríkulácára Sampradáya”.
** A realização do Rito Pañcamakára (também conhecido como Pañcatattva) está aberta apenas para aqueles que passaram pelo Diksha Pújá ou Ritual de Iniciação.
 

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